Radiografia do investimento
social
Elaborado a cada dois anos, o Censo GIFE
retrata a evolução do investimento social no Brasil
e revela tendências e oportunidades
Com a intensificação do
debate sobre a capacidade
do Estado em atender às
demandas sociais, conceitos
como terceiro setor e responsabilidade
social empresarial ganharam relevância
no fim dos anos 1980. Os empresários
brasileiros perceberam que poderiam
ir além do assistencialismo e contribuir
com mais eficácia para a transformação
da sociedade.
Nesse contexto nasceu, em 1995,
o Grupo de Institutos Fundações e
Empresas (GIFE), organização sem fins
lucrativos que hoje conta com 124
associados e tem no seu Conselho de
Governança o vice-presidente do Grupo
IBOPE, Luís Paulo Montenegro.
Para cumprir sua missão de aperfeiçoar
e difundir conceitos e práticas do
uso de recursos privados em prol do
bem comum, o GIFE atua em diversas
frentes. Entre suas iniciativas destaca-se
a realização de um censo bienal sobre
o Investimento Social Privado (ISP) de
seus associados, utilizado por empresas
e entidades governamentais como
referência no planejamento de
políticas sociais.
A revista Giro entrevistou o secretário
geral do GIFE, Fernando Rossetti,
que falou sobre o Censo 2009-2010,
realizado em parceria com o Instituto
Paulo Montenegro e com o apoio do
IBOPE Inteligência.
Giro: O que motivou o GIFE a criar
um censo sobre investimento social
na iniciativa privada?
Fernando Rossetti: A intenção do GIFE
é produzir conhecimento sobre o que se
faz de mais avançado em investimento
social no Brasil. O Censo surgiu como
uma contribuição adicional para
que as empresas e demais instituições
planejem melhor suas ações sociais.
Eu diria que é uma das pesquisas
mais refinadas sobre o setor na
América Latina, pois mostramos em
que áreas os investidores atuam,
com que valores e prioridades, entre
outras questões. A iniciativa deu
resultado, pois, ao mesmo tempo
que ajudamos nosso associado a se
posicionar, revelamos tendências e
indicamos espaços e oportunidades para
um investimento mais eficaz em ações
sociais, culturais e ambientais.
Giro: Desde quando vocês realizam
o Censo?
FR: Começamos em 2000, mas a
metodologia se desenvolveu bastante
ao longo dos anos, por isso passamos
a considerar a série histórica a partir do
Censo GIFE 2005-2006.
Giro:Que inovações foram
introduzidas a partir do Censo
2005-2006?
FR: Para realizar o Censo contamos sempre com o apoio de uma empresa associada. Em 2005, nosso patrocinador
queria reposicionar seus projetos
voltados para a educação. Decidimos,
então, produzir também o Censo GIFE
Educação. Esse estudo complementar
revelou haver muitas ações voltadas
para o ensino fundamental e poucas
para a educação infantil e o ensino
médio. As informações foram úteis para
o patrocinador decidir concentrar sua
atuação no ensino médio. No Censo
2007-2008, abordamos a juventude e,
no de 2009-2010, nos profundaremos
no tema cultura.
Giro: Em que estágio se encontra
o Censo 2009-2010?
FR: Concluímos a coleta de dados
em abril, desta vez com um nível de
adesão de 85% dos associados, porque
contamos com pesquisadores preparados
pelo IBOPE e pelo GIFE para a realização
desse trabalho, ao contrário dos anos
anteriores, em que os formulários foram
enviados e devolvidos por email. Este
ano vamos usar alguns dados extraídos
do Censo para realizar pesquisas
qualitativas com grupos de especialistas
da Rede GIFE e enriquecer a análise.
O lançamento oficial será em setembro,
mas já apresentamos uma prévia no
6º Congresso GIFE, que realizamos em
abril, no Rio de Janeiro (RJ).
Giro: Quais são as tendências para o
investimento social privado?
FR: Em nosso congresso, lançamos
um documento chamado Visão para o Investimento Social Privado em 2020.
Construído a partir de informações levantadas pelo Censo, ele tem três
eixos: a relevância do investimento,
a sua abrangência e quem realiza
esse investimento. De modo geral, os
realizadores evoluíram na avaliação de
resultados, mas é possível melhorar a
qualidade dessas avaliações. Outro dado
relevante é o de que os censos mostram
um maior investimento em educação,
cultura e juventude, em detrimento
de áreas como direitos humanos, por
exemplo. Além disso, há uma tendência
de investir mais nas Regiões Sul e
Sudeste, nas quais estão os locais onde
a riqueza é gerada. Ou seja, o Censo
sinaliza que há oportunidade para atuar
em outras frentes e também em outras
partes do Brasil.
Giro:Além de identificar
tendências, que outras leituras o
Censo GIFE permite?
FR: O GIFE apoia a profissionalização
do setor e uma de suas funções é a
de estimular a troca de experiências e
contribuir para a elaboração de planos
estratégicos em investimento social.
Nesse sentido, a cada evento utilizamos
os dados do Censo mais relevantes
para o tema em questão. Com as
informações qualificadas extraídas do Censo, ajudamos empresas e
demais entidades diversificarem
suas ações e a ampliarem sua
abrangência geográfica e mostramos
que, além de implementar projetos
próprios, é possível estabelecer
parcerias ou contribuir com fundos
especializados em projetos sociais.
Também dialogamos com ministérios,
secretarias e demais setores do
governo para os quais fornecemos os
dados do Censo. O alinhamento das
iniciativas privadas com as políticas
públicas é necessário para não haver
sobreposição de ações.
Giro: Há mudanças previstas para
os próximos censos?
FR: Pretendemos alinhar os dados das
próximas edições do Censo GIFE com
alguns levantamentos internacionais,
como o realizado pela Foundation
Center, nos Estados Unidos. Isso é
muito importante, principalmente para
as empresas com atuação internacional.
Se para os negócios existe um
sofisticado sistema de informações,
na área de investimento social não
poderia ser diferente.
Giro: Como funciona a parceria
entre o GIFE e o Instituto Paulo Montenegro?
FR: O Instituto Paulo Montenegro,
liderado por sua diretora executiva,
Ana Lúcia Lima, uma pessoa com muita
vivência em pesquisa, é quem nos ajuda
a construir toda a lógica do Censo,
e os profissionais do IBOPE Inteligência
realizam o trabalho de campo.
Uma valiosa parceria.
Fernando Rossetti é cientista
social e secretário geral
do Grupo de Institutos,
Fundações e Empresas (GIFE). |
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