Novos rumos da brasileira
Estudo da Confederação Nacional da Indústria aponta crescimento e mudanças no comportamento da classe C brasileira e se transforma em livro
Um cenário de otimismo
abriga a classe média
brasileira, de acordo com
um estudo realizado pelo
IBOPE para a Confederação Nacional
da Indústria (CNI), divulgado em
fevereiro deste ano. Ele demonstra que
o segmento, que representava cerca
de 41% dos brasileiros, em 2008,
melhorou nos últimos cinco anos e
aponta mudanças de comportamento,
como a busca por qualidade na
educação. O estudo divide o
contingente populacional pesquisado
entre “classe média tradicional” renda
média familiar de R$ 4,8 mil por mês)
e “classe média baixa” (renda entre
R$ 1,1 mil e R$ 4,8 mil). Seus
resultados deram origem ao livro A Classe Média Brasileira – Ambições,Valores e Projetos de Sociedade, escrito
pelos cientistas políticos Amaury de
Souza e Bolívar Lamounier.
A Revista Giro ouviu o diretor
executivo da CNI, José Augusto
Fernandes, para falar, entre outros
assuntos, sobre os resultados do estudo
que aborda a nova classe média e a
contribuição das pesquisas realizadas
em parceria com o IBOPE para os
negócios da instituição.
Giro: O que motivou a CNI a realizar o projeto que resultou no livro
A
Classe Média Brasileira – Ambições, Valores e Projetos de Sociedade?
José Augusto Fernandes: Buscamos, com
o estudo, conhecer os fenômenos de
crescimento da classe média no Brasil,
com duas finalidades. A primeira, de gerar
elementos para orientar as empresas na
melhor distribuição de seus investimentos.
A segunda, de orientar a CNI na estratégia
de representação empresarial, criando
ações compatíveis com a agenda de
modificações da sociedade.
Giro: O estudo mostra que a “nova”classe média é a grande responsável
pela recuperação da economia, diante da crise internacional. Em que
contexto isso se dá?
JAF: O mercado doméstico ajudou na
melhor convivência do Brasil com a crise.
Mas acho excessivo afirmar que a classe
média é a responsável pela recuperação da
economia. Esta se deu pela reunião de um
conjunto de investimentos, que ajudaram
os brasileiros a superarem as dificuldades
do momento de crise. Mas é certo que,
ao ter uma classe média forte e atuante, o
Brasil pôde passar melhor pelos problemas.
Giro: O senhor acredita que oprocesso de consumo da classe C seja
sustentável e de longo prazo?
JAF: Sim. A continuidade do crescimento
econômico e a estabilização de preços,
por exemplo, são fatores que reforçam
o crescimento do consumo da classe
média. À medida que o Brasil cresce, ela
se expande. Outro fator é a procura pelo
desenvolvimento de competências. O
estudo mostrou que uma grande parcela
da classe média depende de auxílios do
governo. Mas, por outro lado, é preciso
avaliar em que medida ela também está
desenvolvendo um trabalho que aponta
interesse e investimentos na qualidade da
educação, reforçando a perspectiva de
que, daqui a dez anos, a maior parte da
população brasileira pertencerá à classe
média. A questão-chave que fornecerá
bases para o fortalecimento desse processo
é a de caráter político-econômico.
Giro: Em sua opinião, qual o papel da indústria no processo de crescimento da “nova” classe média?
JAF: A indústria é um dos setores que mais
têm crescido e é uma fonte importante de
geração de empregos. Este crescimento
exige níveis educacionais mais elevados,
o que impulsiona um maior estímulo de
desenvolvimento de competências na
classe média. Hoje, a indústria também
se adapta a esta nova realidade social,
desenvolvendo produtos mais simples,
direcionados para a classe média, mas
que mantêm sua funcionalidade. As
empresas também estão se aproximando
desse mercado em expansão, instalando
unidades nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, por exemplo.
Giro: IBOPE e CNI têm sido parceiros frequentes na realização de pesquisas trimestrais regulares. Qual a importância da realização desses estudos para o trabalho da CNI?
JAF: Em primeiro lugar, os estudos
possibilitam o acompanhamento
da conjuntura econômica brasileira.
Utilizamos os resultados das pesquisas
para criar indicadores, como o índice
de confiança do consumidor e o
índice do medo de desemprego, por
exemplo. Em segundo, os estudos são
um input para as estratégias da CNI,
pois permitem antecipar tendências,
avaliando a população diante de
políticas que a indústria pretende
adotar. Realizamos pesquisas sobre
temas que estão em discussão no
Congresso Nacional, por exemplo,
para saber a opinião da população e o
reflexo deles na indústria.
Giro: Que mudanças podem ser observadas no comportamento do
brasileiro, com base no histórico das pesquisas feitas com o IBOPE?
JAF: Uma das mudanças é a relação do
brasileiro com a inflação. O aumento
de sua sensibilidade é um importante
comportamento de se observar, pois
isso tem implicações sobre uma série
de políticas, e é preciso estar atento às reações do eleitor. Observamos
também uma maior evolução do
espírito empreendedor e competitivo
do brasileiro. Estas são mudanças
positivas de valores, pois demonstram
mais ambição, autonomia e
educação. Trata-se de uma evolução.
Giro: Essas mudanças mostram que estaríamos mais próximos do
“Brasil do futuro”?
JAF: O Brasil do futuro depende
de um conjunto de mudanças,
como, por exemplo, um processo
de modernização da economia.
São ações que não ocorrem simultaneamente. Também é
muito importante que permaneça
a dinâmica do desejo da classe
média de continuar evoluindo. É
essencial que essas medidas tenham
continuidade, para criar uma
sociedade mais aberta e competitiva,
não tão dependente do Estado.
Giro: Por que a CNI escolheu o IBOPE para esta parceria na realização de pesquisas?
JAF: A CNI tem uma relação de mais
de 20 anos com o IBOPE e confia em
sua experiência, que evolui a cada
dia. Aprendemos a melhor utilizar
os dados de pesquisas, ao longo
desse tempo, e hoje os resultados
geram produtos. Estamos, inclusive,
discutindo um novo patamar nesta
parceria, que resultará em ainda
mais produtos, como a criação de
relatórios sobre políticas públicas, o
que propiciará um maior consumo
interno de informações.
José Augusto Fernandes é diretor executivo da CNI e coordenou o projeto sobre a classe média brasileira. |
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