Internet e consumo infantil
Estudo da Millward Brown Brasil investiga como a internet influencia o poder da “geração pós-google”
na escolha de produtos adquiridos por seus pais
As crianças de hoje têm pais
mais liberais, mais ocupados
e mais preocupados com
a segurança de seus filhos.
Essas crianças passam muito tempo em
ambientes fechados e ingressam cedo no
mundo digital, seja por meio da televisão,
do videogame ou do computador com
acesso à internet, onde se divertem,
encontram amigos e estudam.
Com tantos estímulos via web, as
crianças opinam cada vez mais nas
compras da família e a indústria se
empenha em utilizar esse meio para
conquistar o público infantil. Mas como a
internet influencia os hábitos de consumo
dos pequenos? Qual será efetivamente
o poder deste meio comparado aos
demais? Qual é o seu potencial para
consolidar marcas, influenciar escolhas e
determinar compras?
Estas e outras questões motivaram
Gisele Agnelli e Aline Souza, gerente e analista da Millward Brown Brasil (MBB),
respectivamente, a realizarem o estudo
Internet e Consumo Infantil, apresentado
no 4º Congresso Brasileiro de Pesquisa
de Mercado, Opinião e Mídia, realizado
em São Paulo (SP). O estudo incluiu
pesquisas qualitativas exploratórias com
crianças de 2 a 12 anos e suas mães, além
de um laboratório por meio do qual foi
observada a navegação na web.
“Atividades infantis tradicionais
coexistem com o mundo digital, mas
algumas ganham novo formato: o diário
se transforma em blog, as turminhas se
encontram nas redes
sociais e os jogos vão
para o monitor”, explica
Gisele. A televisão reina absoluta até os três anos de idade. A
partir deste momento a criança é atraída
pela internet, que disputa espaço com
o videogame, o mp3 player e o telefone
celular, até conquistar a preferência das
crianças entre 8 e 12 anos. “Uma das
hipóteses para a desenvoltura da criança
no manuseio de equipamentos eletrônicos
pode estar na liberdade dada por seus
pais, que evitam dizer ‘não mexa’ a todo
o momento”, diz Aline.
Internet sem limites
Organizado pelo IBOPE
Mídia, o evento Internet Sem
Limites, realizado no Hotel
Unique, em São Paulo, reuniu
140 representantes dos principais
clientes da empresa para apontar
e discutir as tendências da internet e como monitorar redes sociais. O
psicanalista Contardo Calligaris fez
uma palestra abordando o impacto
do fenômeno midiático digital no
comportamento dos usuários. Para
ele, blogs e microblogs incentivam
os adolescentes a escrever. “As
pessoas nunca dedicaram tanto
tempo à arte de fazer e manter
amigos”, avalia.
Na ocasião, foram
apresentados dois novos produtos.
O BuzzMetrics, que oferece
insights sobre o conteúdo online,
cobre mais de 4,5 milhões
de blogs, 70.000 fóruns e 50
milhões de comentários em
língua portuguesa. Por meio de
palavras-chave, ele dimensiona
quantas vezes empresas, marcas,
produtos, campanhas ou eventos
foram citados em redes sociais,
blogs, microblogs, fóruns, vídeos
e no conteúdo online de mídias
tradicionais. Também permite
avaliar a percepção do consumidor
e seu poder de influência.
As aplicações desse produto,
utilizado há mais de dez anos
nos Estados Unidos, foram
apresentadas pela vice-presidente do BuzzMetrics, Lydia
Worthington. Segundo ela,
a grande preocupação da
empresa é a de entregar análises,
recomendações e conhecimento
aos clientes e não somente dados.
Outra novidade demonstrada
foi o VideoCensus, que analisa
o desempenho de vídeos e
anúncios postados na web. Ele
avalia a interação do usuário a
partir de critérios como tempo de
exposição, conteúdos acessados
e o número de reproduções.
Com o apoio dessa ferramenta,
agências e anunciantes podem
estimular o tráfego, maximizar o
valor do inventário, acompanhar
campanhas e medir resultados. De
acordo com Cris Rother, diretora
de negócios do IBOPE Nielsen
Online, um dos diferenciais do
produto é o average attentiveness
score, que mede a qualidade da
experiência do espectador.
No encerramento do evento,
a palestrante Lydia Worthington
juntou-se ao consultor Maurício
Tortosa, ao diretor do núcleo
Proxxima do grupo M&M Pyr
Marcondes e a Guilherme
Ribenboim, presidente do Yahoo!
América Latina, para um debate
com a plateia. As perguntas e
respostas desse debate, vídeos das apresentações, fotos etc.
estão disponíveis no endereço
www.ibope.com/internetsemlimites. |
Outro dado relevante apontado pela
pesquisa é a influência das crianças na
escolha de produtos de tecnologia: 40%
dos pais e mães disseram que seus filhos
são os experts em tecnologia da casa.
Realmente, cada vez mais eles opinam
na compra de celulares, televisores e
computadores. “Pela primeira vez na
história, os jovens dominam melhor a
tecnologia do que seus pais e estão mais
confiantes em suas opiniões”, diz Roberto
Shinyashiki, psiquiatra e escritor.
Se por um lado a internet potencializa
as interações, ela parece reforçar a
“cultura do quarto”, cada vez mais
repleto de equipamentos eletrônicos
para uso exclusivo da criança. Muitas
crianças, sobretudo das classes AB, passam
muito tempo sozinhas. Nesse sentido, as
pesquisadoras levantam a hipótese de um
novo encasulamento, o cocooning digital.
Na opinião de Shinyashiki, entretanto,
esse isolamento não pode ser atribuído à internet. “O mundo digital reforça características de personalidade.
O introvertido fica mais introvertido e o extrovertido tem mais ferramentas para
se socializar”, argumenta.
Afinal, o que as crianças buscam
na internet? No laboratório realizado
pela pesquisa observou-se que os
menores procuram jogos, enquanto
as crianças na faixa dos 8 aos 12 anos
se relacionam pelas redes sociais.
Nesse contexto, é importante que os
pais também acessem esses meios
para trocar recados, compartilhar fotos
etc. “Os pais têm de utilizar essas
ferramentas para se comunicar com seus
filhos”, opina Shinyashiki.
No ambiente da internet, as crianças
se envolvem com marcas expostas em sites de personagens, heróis e mascotes.
Essas referências influenciam a escolha
de mochilas, cadernos, entre outros
produtos. A internet, entretanto, não
supera a televisão na publicidade dirigida
às crianças. “Ela funciona como uma
espécie de extensão da programação da
TV, com a vantagem da interação”
diz Gisele.
Entre esses e outros insights proporcionados pelo estudo, as
autoras destacam que o desafio dos
comunicadores será o de conquistar a
atenção das crianças para o universo
online por meio de conteúdos relevantes,
criativos e que permitam que cada usuário
use a internet à sua maneira. |