Temos muito caminho
pela frente
por Laure Castelnau,
Diretora executiva de marketing e
novos negócios do IBOPE Inteligência
Além de afetar a vida das pessoas, uma crise
econômica gera transformações nas diferentes
esferas da sociedade. Cabe aos profissionais
de pesquisa estudá-la, medir o seu impacto e
contribuir para a melhor compreensão do fenômeno pela
sociedade e pelos mercados.
Durante o 4º Congresso Brasileiro de Pesquisa, apresentamos
o estudo Pós-crise: e agora?, por meio do qual
investigamos as tendências para o período posterior à crise
financeira mundial de 2009. Nosso objetivo foi o de retratar
a percepção da crise pelas pessoas em diferentes partes do
mundo e compreender em que e por que o Brasil se diferencia
dessas visões.
Para realizar esse trabalho, tomamos
por base um estudo sobre os efeitos
da crise em 24 nações que havíamos
realizado
em quatro ondas sucessivas
ao longo de 2009, em parceria com
a Worldwide Independent Network of
Market Research (WIN).
Ao analisar o impacto econômico,
notamos uma forte correlação entre PIB
e otimismo: a Europa ainda pessimista;
a América do Norte em transição para o
otimismo; e um permanente otimismo
nos países do BRIC, com exceção da Rússia. O otimismo brasileiro,
40% superior à média global, reflete um país fortalecido
por mais de uma década de estabilidade econômica.
Nesse sentido, no período pós-crise, é clara a tendência
de crescimento dos países emergentes: em 2000, participavam
do PIB mundial com 37%; em 2014, segundo projeções
do FMI, participarão com 51%.
O grau de confiança mundial nos governos, bancos e
mercado de ações, em queda nos primeiros meses de 2009,
recuperou-se a partir do meio do ano. No Brasil, esses índices não mostraram recuperação, mas se mantêm muito
superiores à média global.
O consenso mundial está na percepção de que nada será
como antes, pois 70% das pessoas desejam grandes mudanças
na maneira de conduzir a economia. O aumento da participação
dos governos na gestão das economias é uma das principais
tendências reveladas pelo estudo e o mais surpreendente é
que ela está fortemente avalizada pela opinião pública.
No consumo, os reflexos da crise foram importantes. Brasileiros
igualaram-se aos europeus, reduzindo em 36% seus
gastos. Mexicanos e argentinos foram mais cautelosos: diminuíram
as despesas em 50% e 45%, respectivamente. Mas os
níveis de consumo já retomaram os patamares
anteriores à crise, parcialmente em razão
do maior acesso ao crédito; as instituições
financeiras deverão tomar cuidados especiais
para evitar o endividamento e, ao contrário,
estimular o crédito consciente.
Na pós-crise, são fortes as tendências de
maior empenho das empresas em ações de
responsabilidade social para reconstruir a
confiança do consumidor.
Da mesma forma, as vendas online tendem
a crescer ainda mais, pois os consumidores
descobriram os benefícios da pesquisa
de preços via internet e da troca de informações de consumo
via redes sociais.
A confiança que o brasileiro demonstrou em plena crise
mundial nos leva à pergunta: será que o Brasil do futuro chegou?
Passamos pela crise com muita tranquilidade e os indicadores
são promissores. O otimismo é, portanto, muito pertinente, mas
não a euforia, pois estar bem neste momento não significa que
nos transformaremos em uma superpotência no próximo ano.
Há muito o que fazer em todas as áreas: jurídica, tributária, educação,
saúde etc. Há muito caminho pela frente. |